De sua fundação no século XVII até 1894, a capital de Santa Catarina chamou-se Nossa Senhora do Desterro — ou simplesmente Desterro. A troca pelo nome atual não nasceu de um plebiscito nem de um movimento popular: foi um ato político, aprovado meses depois de um dos episódios mais violentos da história do estado. Esta página apresenta esse contexto com base na historiografia catarinense, com todas as fontes indicadas ao final.
O contexto: a Revolução Federalista chega à ilha
Nos primeiros anos da República, o Brasil viveu uma guerra civil no Sul — a Revolução Federalista (1893–1895) — que se somou à Revolta da Armada contra o governo do marechal Floriano Peixoto. Em 1893, Desterro foi tomada pelos revoltosos e chegou a abrigar o governo provisório rebelde, o que colocou a cidade, aos olhos do governo federal, na condição de capital da revolta [1][2].
A repressão de 1894
Com a derrota dos federalistas no litoral, Floriano Peixoto enviou a Desterro, em abril de 1894, o coronel Antônio Moreira César, investido de poderes discricionários e à frente de centenas de soldados [2][3]. Seguiram-se prisões em massa e julgamentos sumários, sem garantias legais adequadas, de militares e civis acusados de apoiar os federalistas.
Na Fortaleza de Santo Antônio de Anhatomirim, ao norte da ilha, prisioneiros foram fuzilados. O número exato de mortos é disputado até hoje: o historiador Oswaldo Rodrigues Cabral — o maior estudioso da história de Desterro — registra 185 fuzilados; outras estimativas chegam a 298 [1][3][4]. Cabral classificou o episódio como um “ajuste de contas” do governo federal com a cidade [3]. Entre as vítimas havia gente da terra, e o trauma marcou as famílias da ilha por gerações — o episódio ficou registrado na memória local como “a tragédia do Desterro” [5].
A mudança do nome
Meses depois dos fuzilamentos, a Lei Estadual nº 111, de 1º de outubro de 1894, sancionada no governo de Hercílio Luz, rebatizou a cidade como Florianópolis — “cidade de Floriano” — em homenagem ao presidente que havia ordenado a repressão [6][7]. A homenagem nasceu controversa: parte dos moradores da época opôs-se à mudança, e a controvérsia nunca se encerrou. Até hoje historiadores, cronistas e movimentos locais debatem a retomada do nome Desterro [5][8].
Por que essa memória importa
Este projeto não propõe apagar a história republicana da cidade, e sim completá-la: o nome atual homenageia o mandante de fuzilamentos de gente da própria ilha, enquanto o nome original — Nossa Senhora do Desterro — remonta à fundação, à fé dos primeiros povoadores e à padroeira que a cidade recebeu oficialmente do Papa São Pio X. Recuperar essa memória é um ato de justiça com o povo nativo da ilha, que amou, cuidou e respeitou sua terra, sua origem e sua tradição.
Se sua família guarda memórias, documentos ou histórias transmitidas sobre esse período — ou sobre a vida na ilha em qualquer época —, envie seu depoimento: cada relato, coletado com metodologia pública, ajuda a reconstituir essa história.
Fontes
- Massacre da Ilha de Anhatomirim. Wikipédia. pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_da_Ilha_de_Anhatomirim
- Biografias: Moreira César – Coronel. Memória Política de Santa Catarina, ALESC. memoriapolitica.alesc.sc.gov.br
- CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Nossa Senhora do Desterro. Florianópolis: Lunardelli (2 vols.); e História de Santa Catarina. 4ª ed. Florianópolis: Lunardelli, 1994.
- LUNARDELLI, Diego. Florianópolis: as marcas do legalismo autoritário em Desterro. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). repositorio.ufsc.br
- DAMIÃO, Carlos. Memória de Florianópolis: um nome, muitas mágoas. ND Mais. ndmais.com.br
- História – Florianópolis (SC). IPHAN. portal.iphan.gov.br
- Florianópolis, a capital que homenageou Floriano Peixoto. História de Alagoas. historiadealagoas.com.br
- Florianópolis: a controvérsia por trás do nome da cidade. NSC Total. nsctotal.com.br